Santos Silva é o Ministro da Propagan-
da, um homem que só vive em regime
de poder absoluto e que  encara quem
dele discorda como alvos a abater.
 
O Ministro Santos Silva éum daqueles acidentes da democracia - um regime masoquista que fre-
quentemente permite a existência nos governos de inimigos confessos do debate de ideias e do
pluralismo.  Uma análise  das principais  intervenções  conhecidas  de Santos Silva mostra -logo
desde o  período pré-eleitoral que levou  José Sócrates ao  poder - uma forte marca de controlo e
combate às diferenças,  de desejo de interferência política nos medüe um permanente abuso de
poder  em  relação à oposição.   Teoricamente,  o Ministro dos  Assuntos Parlamentares,  Santos
Silva,  vive o cargo no exercício de uma maioria absoluta - se estivesse perante uma maioria rela-
tiva no  Parlamento  rapidamente se perceberia  a sua inabilidade e a sua falta de capacidade de
concretização de obra. Ele só consegue fazer o que não tem oposição possível. Quando se deba-
te com oposição,  mostra uma total  incapacidade de concretizar  o que quer  que seja. Isto não é
novidade na sua actuação  -  o personagem Santos Silva fez o tirocínio governamental nos gover-
nos Guterres de má memória. Aí foi um apagadíssimo e inútil Secretário de Estado na Educação,
mais tarde Ministro da Educação,  num cinzento mandato sem obra feita.  Logo a seguir transitou
para  Ministro  da  Cultura,  com  a  missão  de  resolver o  caos em que  o seu  antecessor,  José
Sasportes, tinha deixado o Ministério  -  tarefa que não cumpriu,  tendo a sua fugaz passagem ficado marcada  pela paralisia da
instituição.  E isto,  note-se,  na área de  especialização académica de Augusto Santos Silva.  Na sua actual função, desde cedo
mostrou o espírito arruaceiro,  que agora o  PS descobriu quando se insurgiu contra as divergências  de  Edmundo Pedro e Ma-
nuel Alegre e prometeu malhar  nas diversas  oposições  à esquerda e à direita.  O principal traço da sua  personalidade é uma
prosápia de  violências verbais que contrastam o ar apagado e de olhos no chão  num diálogo  cara-a-cara,  a forma  arruaceira
como gosta de argumentar e a maneira como sacrifica qualquer diferença ao dogma do poder. Deste homem, de quem não se
conhece obra construída na vida real,  à parte a sua actividade académica há muito
interrompida,  depende boa  parte do controlo de  informação sobre a rádio e televi-
são  pública e a  agência noticiosa.  Na realidade ele é efectivamente  o Ministro da
Propaganda,  um  homem que  só vive em regime de poder  absoluto e que encara
quem dele  discorda como alvos a abater.  É  gente  assim que está ao lado de Só-
crates nas eleições internas do PS.

*mfalcao@gmail.com
www.aesquinadorio.blogs.sapo.pt
 
JUSTIÇA À NOSSA MODA
JUIZ LIBERTA
SUPEITO DE
MATAR A
MULHER
TENTOU ATROPELAR
1. Premeditação
2. Viatura abandonada
3. Ameaças
Quando fugiu  do local do crime,
o homicida abriu os bicos do fo-
gão,  deixando um deles aceso.
Uma  irmã  de  Sara  Tavares fe-
chou-os.
Na fuga, o suspeito tentou atro-
pelar  a  mulher já  caída na es-
trada e ensanguentada. A viatu-
ra  foi  abandonada  na zona de
Olhos de Água, em  Albufeira, e
apreendida pelas autoridades.
Familiares e vizinhos dizem que
Sara era ameaçada de morte. A
vítima  já tinha  estado refugiada
em  casa de  uma irmã há cerca
de dois anos. O casal estava ca-
sado há sete meses.
 
 
Ministra e deputada bloquista envolveram-se numa troca de acusações
Lurdes e Drago pegaram-se
No balanço de quatro anos de política educativa, o momento mais inflamado envolveu
Maria Lurdes Rodrigues e Ana Drago.

Os trabalhos do útimo debate parlamentar desta legislatura na Comissão de Educação
foram ontem interrompidos devido a uma troca de acusações entre Maria de Lurdes
Rodrigues, ministra da Educação, e Ana Drago, deputada do Bloco de Esquerda.
Crispada desde o início do debate, a troca de palavras entre a oposição e Maria de
Lurdes Rodrigues atingiu o auge quando, depois das críticas, a deputada bloquista
lançou a questão: '
Eu gostaria de saber se a senhora Ministra estaria disposta a
continuar como ministra da Educação se o senhor primeiro-ministro a convidasse?
',
pode ler-se no site da TSF. '
É mesmo preciso aguardar aquilo a que se chama o
processo eleitoral, os "votozinhos" e a senhora deputada necessitam de ser contados
',
respondeu a titular da Pasta da Educação.
Ainda segundo a TSF, no regresso da ministra da Educação, esta retomou o tom, insistindo que 'até os portugueses votarem nada
está decidido, nem na minha cabeça nem na sua deve estar
', Indignada com o tom da ministra, Ana Drago batia na bancada, o que
levou Antóio José Seguro, presidente da comissão a interromper os trabalhos. Esta deverá ter sido a útima ida de Maria de Lurdes
Rodrigues à Assembleia da Repúlica, pelo que os deputados aproveitaram para fazer o balanço de quatro anos de mandato.
A ministra da Educação anunciou que cerca de 75 por cento dos professores entregaram os objectivos individuais. 'A avaliação do
desempenho dos professores desenvolveu-se, está implementada e já é algo incontornável', apontou Maria de Lurdes Rodrigues.
Durante o debate, os deputados do BE e do PCP lançaram à discussão a insatisfação que os docentes têm demonstrado pelas
actuais políticas do Governo, reportando-se à manifestação que no passado sábado juntou oitenta mil professores em Lisboa.
A ministra desvalorizou os protestos dos docentes e continua a defender que um modelo que avalie o desempenho dos
professores é fundamental nas escolas portuguesas. Ao fim de quatro anos de mandato, a ministra da Educação, Maria de Lurdes
Rodrigues, diz sentir-se orgulhosa pelos resultados obtidos. '
Temos mais alunos nas escolas, uma oferta formativa maior e escolas
modernas com os equipamentos tecnológicos necessários
', considerou. O Governo promete integrar, no próximo ano lectivo, no
modelo curricular dos alunos do ensino básico e secundário a educação sexual e inaugurar os novos centros escolares.
OS POLÍTICOS QUE TEMOS E AS POLÍTICAS QUE ELES FAZEM
 
 
Um bebé de dias morreu na fila das urgências do hospital de Viana do Castelo. Os
pais de Simão acusam o Centro de Saúde de Monção de ter perdido tempo, noticia o
«Correio da Manhã».

O bebé de 29 dias foi visto duas vezes no Centro de Saúde antes de ser
encaminhado para as urgências, mas já foi tarde demais.

Às 09:00, o recém-nascido foi ao centro de saúde por ter umas manchas vermelhas
na fralda. Quase três horas depois foi atendido por um médico. Depois de telefonar a
um pediatra, o clínico informou os pais que o bebé estava com cólicas.
Só que o bebé não parou de chorar e por volta das 14:45 os pais levaram-no outra vez ao hospital. Na nova observação, a médica
espanhola terá dito que eram cólicas, mas perante a insistência dos pais foram prescritas análises à urina, escreve o «Correio da
Manhã». Nessa altura, uma infecção urinária passou também a ser hipótese. O bebé não fazia chichi e chorava cada vez mais. Por
isso, segundo contam os pais ao «Correio da Manhã», a médica escreveu uma carta para se dirigirem às urgências de Viana do
Castelo, apenas «por descargo de consciência». Depois dos 60 KM até ao hospital, os pais notaram que o bebé estaria a perder
os sentidos e gritaram por socorro. Dois médicos tentaram reanimar o Simão, mas já era tarde demais. Eram 19:00.  A TVI
contactou o Centro de Saúde de Monção que remete explicações para o hospital de Viana de Castelo. O hospital diz que só se
pronuncia depois de conhecidos os resultados da autópsia.
 
UMA VERGONHA
Nascimento Rodrigues, que, ontem, renunciou ao cargo de provedor de Justiça
com efeitos imediatos, considerou que o impasse na escolha do seu sucessor
revela “um problema de responsabilidade política” dos líderes partidários. “Não
posso dar ordens aos responsáveis políticos, mas mando esta mensagem: têm
de se entender para bem do País”, disse. Nascimento Rodrigues precisou que
está a apelar à intervenção “de quem deve resolver as coisas”. Neste sentido,
pediu ainda à Assembleia da República (AR) que “retome os esforços para
proceder à eleição do novo provedor de Justiça”. “O País está a viver uma situação
económica e social muito grave, a qualidade da democracia tem-se degradado
(…) e os cidadãos, nos quais agora me incluo, têm o direito de reclamar aos
deputados que façam esse esforço de entendimento e consenso”, sublinhou.
Disse ainda que “há muitas pessoas que parecem ter medo das palavras
consenso, compromisso e entendimento”, observando que a democracia
também se faz de “entendimentos e compromissos”. À saída da audiência,
na qual Nascimento Rodrigues apresentou a sua renúncia ao cargo de Provedor
da Justiça, o presidente AR instou os partidos a entenderem-se quanto ao nome  
do futuro Provedor de Justiça. “O Provedor é eleito por dois terços, portanto os partidos têm que se entender. Se com tanta
facilidade o fizeram sobre a lei definanciamento partidário, porventura com soluções que nem sempre tiveram a validade mais
adequada, têm agora toda a oportunidade para se entender sobre esta matéria”, afirmou Jaime Gama. O presidente da AR
não se quis comprometer com qualquer data para o agendamento de nova eleição para o cargo, cujo prazo previsto é de
30 dias, mas manifestou-se confiante numa “solução que cumpra a Constituição portuguesa e o regimento da
Assembleia”,  ainda na presente legislatura.
 
 
 
Asituação financeira das famílias portuguesas
tem-se vindo a degradar nos últimos meses. Neste
momento, o endividamento das famílias portuguesas
é o segundo mais elevado na Zona Euro, isto num
ano em que o Banco de Portugal espera que o
incumprimento no crédito aumente para valores
superiores aos atingidos na recessão de 2003. De
acordo com o Relatório de Estabilidade Financeira
referente a 2008, ontem apresentado pelo Banco de  
Portugal, "8 nível de endividamento dos
particulares continua a ser dos mais elevados
no contexto da área do euro", só superado pelo
verificado na Holanda. Os números revelados
pelo supervisor português mostram que 75% do
endividamento dos particulares em Portugal é
relativo ao crédito à habitação. A instituição,
liderada por Vítor Constâncio, refere ainda que
os empréstimos para a compra de casa
representavam no ano passado 90% do rendimento disponível das famílias. Empresas. No entanto, a autoridade portuguesa
afirma que também as empresas privadas atravessam uma situação complicada. "Existe uma expectativa de um aumento
significativo do incumprimento no crédito ao sector privado não financeiro", diz o BdP, sublinhando que este está a ser empolado
pelo agravamento das perspectivas macroeconómicas, apesar da queda das taxas de juro. Durante este ano, o BdP espera
também que os pedidos de empréstimos recuem face a outros anos, o que provocará uma desaceleração da actividade bancária.
Banca. A quebra na actividade bancária terá efeitos no sistema financeiro português, o que leva o BdP a prever a persistência de
riscos intensos no sector. A instituição liderada por Vítor Constâncio diz que a rendibilidade bancária vai recuar devido à
dificuldade na captação de recursos e aos efeitos da recessão na economia portuguesa.
 
A ACTIVIDADE económica em Portugal voltou a degradar-se em Abril, acentuando a queda iniciada em Julho de 2008. O indicador
coincidente mensal do Banco de Portugal (BdP), que antecipa a evolução do Produto Interno Bruto (PIE), recuou 0,2% em relação a
Março e 3.1% face ao período homólogo. Foi o décimo mês consecutivo de baixa do indicador. No primeiro trimestre do ano, a
economia portuguesa registou uma quebra homóloga de 3,7%. segundo as estimativas oficiais do Instituto Nacional de Estatística
(INE), pelo que os 3,1% de Abril parecem sinalizar que o ponto de inflexão da fase de quebra do ciclo foi atingido até Abril.
ConfIrmando os indícios de abrandamento do rtimo de quebra da economia, o indicador coincidente mensal do banco central para
a evolução homóloga do consumo privado, a principal componente do PIE, apresentou em Abril "uma estabilização face ao mês
anterior", permanecendo, pelo segundo mês nos 0.8%. A melhoria relativa dos indicadores não se refletiu ainda nas expectativas e
nos índices de confiança. O indicador de sentimento económico do Banco dé Portugal voltou a deteriorar-se para os 61,4 pontos
em Abril, anulando a recuperação de Março.
AUTO-ESTRADAS,
TGV, AEROPORTOS...
TUDO EM GRANDE
 
Segunda-feira passada, a meio da tarde,  faço a A-6,  em direcção a Espanha e na companhia
de uma amiga estrangeira;  quarta-feira de manhã,  refaço o mesmo percurso,  em sentido in-
verso,  rumo a Lisboa.  Tanto  para lá como para cá,  é uma  auto-estrada luxuosa e fantasma.
Em contrapartida, numa breve incursão pela estrada nacional,  entre Arraiolos e Borba, vamos
encontrar  um trânsito cerrado,   composto esmagadoramente  por  camiões  de  mercadorias
espanhóis.  Vinda de um país  onde as auto-estradas estão sempre cheias, ela está espanta-
da com o que vê:
-
É sempre assim, esta auto-estrada?
- Assim, como?
-
Deserta, magnífica, sem trânsito?
- É, é sempre assim.
 
- Todos os dias?
- Todos, menos ao domingo, que sempre tem mais gente.
-
Mas, se não há trânsito, porque a fizeram?
- Porque havia dinheiro para gastar dos  Fundos  Europeus,  e porque diziam
que o desenvolvimento era isto.
- E têm mais auto-estradas destas?
- Várias  e ainda temos outras em construção:  só de Lisboa para o Porto, va-
mos ficar com três.  Entre  S. Paulo e o  Rio de Janeiro, por exemplo,  não há
nenhuma:  só uns quilómetros  à saída  de  S. Paulo e  outros  à chegada ao
Rio. Nós vamos ter três entre o  Porto e Lisboa:  é a aposta no automóvel, na
poupança de energia, nos acordos de Quioto, etc. - respondi, rindo-me.
-
E, já agora, porque é que a auto-estrada está deserta e a estrada nacional
está cheia de camiões?
- Porque assim não pagam portagem.
 
- E porque são quase todos espanhóis?
- Vêm trazer-nos comida.
- Mas vocês não têm agricultura?
- Não:  a Europa paga-nos para não ter.  
E os nossos agricultores dizem que produzir não é rentável.
- Mas para os espanhóis é?
- Pelos vistos...
Ela ficou a pensar um pouco e voltou à carga:
- Mas porque não investem antes no comboio?
- Investimos, mas não resultou.
- Não resultou, como?
- Houve aí uns experts que gastaram uma fortuna a modernizar a linha
Lisboa-Porto, com comboios pendulares e tudo, mas não resultou.
- Mas porquê?
 
- Olha, é assim: a maior parte do tempo, o comboio não 'pendula';  e, quando
'pendula',  enjoa  de morte.  Não  há sinal de  telemóvel nem Internet,  não há
restaurante,  há apenas um bar infecto e,  de facto, o único sinal de 'moderni-
dade'  foi proibirem  de fumar em qualquer  espaço do comboio.  Por isso, as
pessoas preferem ir de carro e a companhia ferroviária do Estado perde cen-
tenas de milhões todos os anos.
- E gastaram nisso uma fortuna?
- Gastámos. E a única coisa que se conseguiu foi tirar 25 minutos às três ho-
ras e meia que demorava a viagem há cinquenta anos...
- Estás a brincar comigo!
- Não, estou a falar a sério!
- E o que fizeram a esses incompetentes?
- Nada.  Ou melhor, agora vão dar-lhes uma nova oportunidade, que é enche-
rem o país de TGV: Porto-Lisboa, Porto-Vigo, Madrid-Lisboa...
e ainda há umas ameaças de fazerem outro no Algarve e outro no Centro.
 
- Mas que tamanho tem Portugal, de cima a baixo?
- Do ponto mais a norte ao ponto mais a sul, 561 km.
Ela ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não.
- Mas, ao menos, o TGV vai directo de Lisboa ao Porto?
- Não,  pára em várias estações:  de cima para baixo e se a memória não me
falha, pára em Aveiro, para os compensar por não arrancarmos já com o TGV
deles  para  Salamanca;  depois,  pára em  Coimbra para não  ofender o prof.
Vital Moreira, que é muito importante lá; a seguir, pára numa aldeia chamada
Ota,  para  os compensar por não  terem  feito lá o novo aeroporto  de Lisboa;
depois, pára em Alcochete, a sul de Lisboa, onde ficará  o futuro aeroporto; e,
finalmente, pára em Lisboa, em duas estações.
- Como: então o TGV vem do Norte,  ultrapassa Lisboa pelo sul, e depois vol-
ta para trás e entra em Lisboa?
 
 
 
- Isso mesmo.
- E como entra em Lisboa?
- Por uma nova ponte que vão fazer.
- Uma ponte ferroviária?
- E rodoviária também:  vai trazer mais uns  vinte  ou  trinta  mil carros  todos os dias
para Lisboa.
- Mas isso é o caos, Lisboa já está congestionada de carros!
- Pois é.
- E, então?
- Então, nada. São os especialistas que decidiram assim. Ela ficou  pensativa outra
vez.  Manifestamente, o assunto estava a fasciná-la.
- E, desculpa lá, esse TGV para Madrid vai ter passageiros?
Se a auto-estrada está deserta...
- Não, não vai ter.
- Não vai? Então, vai ser uma ruína!
- Não, é preciso distinguir: para as empresas  que o vão construir e para  os bancos
que o vão capitalizar,  vai ser um negócio fantástico!  A exploração é que vai ser uma
ruína  - aliás,   já admitida pelo  Governo  -  porque,  de facto,   nem os  especialistas
conseguem encontrar passageiros que cheguem para o justifificar.
- E quem paga os prejuízos da exploração: as empresas construtoras?
- Naaaão! Quem paga são os contribuintes!  Aqui a regra é essa!
- E vocês não despedem o Governo?
- Talvez, mas não serve de muito:  quem assinou os acordos para o TGV com Espa-
nha foi a oposição, quando era governo...
- Que  país o vosso!  Mas qual é o  argumento dos  governos para fazerem  um TGV
que já sabem que vai perder dinheiro?
- Dizem que  não podemos  ficar fora da  Rede  Europeia  de Alta Velocidade.
- O que é isso? Ir em TGV de Lisboa a Helsínquia?
- A Helsínquia, não, porque os países escandinavos não têm TGV.
- Como? Então,  os países mais  evoluídos da Europa não têm  TGV e vocês têm de
ter?
- É,  dizem  que  assim  entramos mais  depressa na  modernidade.  Fizemos  mais
uns  quilómetros de  deserto rodoviário de luxo,  até que ela  pareceu lembrar-se de
qualquer coisa que tinha ficado para trás:
- E esse novo aeroporto de que falaste, é o quê?
- O novo aeroporto internacional de Lisboa,  do lado de lá do rio e a uns 50 quilóme-
tros de Lisboa.
- Mas vocês vão fechar este  aeroporto que é um luxo,  quase no centro da cidade, e
fazer um novo?
- É isso mesmo. Dizem que este está saturado.
- Não me pareceu nada...
- Porque não está: cada vez tem menos voos e só este ano a TAP vai cancelar cerca
de 20.000. O que está a crescer são os voos das low-cost,  que, aliás,  estão a liqui-
dar a TAP.
- Mas, então,  porque não  fazem como se faz  em todo o lado,  que é deixar as com-
panhias de linha no aeroporto  principal e chutar as low-cost para um pequeno aero-
porto de periferia? Não têm nenhum disponível?
- Temos vários.  Mas os  especialistas dizem  que  o novo aeroporto vai ser um  hub
ibérico, fazendo a trasfega de  todos os  voos da América do Sul para a Europa:  um
sucesso garantido.
- E tu acreditas nisso?
- Eu  acredito  em tudo  e não  acredito  em  nada.  Olha ali ao fundo:  sabes o que é
aquilo?
- Um lago enorme! Extraordinário!
- Não: é a barragem de Alqueva, a maior da Europa.
- Ena! Deve produzir energia para meio país!
- Praticamente zero.
- A sério? Mas, ao menos, não vos faltará água para beber!
- A água não é potável: já vem contaminada de Espanha.
- Já não sei se estás a gozar comigo ou não, mas, se não serve para beber, serve
para regar - ou nem isso?
- Servir,  serve,  mas vai demorar vinte  ou mais anos  até  instalarem o perímetro de
rega,  porque,  como te disse,  aqui acredita-se que a agricultura não tem futuro: an-
tes, porque não havia água; agora, porque há água a mais.
- Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e não serve para nada?
- Vai servir para regar campos de golfe e urbanizações turísticas, que é o que nós
fazemos mais e melhor.
 
 
Apesar do sol de frente, impiedoso, ela tirou os óculos escuros e virou-se para me olhar bem de frente:
- Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos ou são ricos?
- Antes, éramos só doidos e fizemos algumas coisas notáveis por esse mundo fora;  depois, disseram-nos que afinal éramos ricos
e desatámos a fazer todas as asneiras possíveis cá dentro;  em breve,  voltaremos a ser pobres e enlouqueceremos de vez. Ela vol-
tou a colocar os óculos de sol e a recostar-se para trás no assento. E suspirou:
- Bem, uma coisa posso dizer:  há poucos países tão agradáveis para viajar como Portugal!  Olha-me só para esta auto-estrada sem
ninguém!
 
DIFERENÇAS
Opinião de Mário Crespo
Assistir ao duríssimo questionamento da comissão de inquérito senatorial nos Estados Unidos para a
nomeação da juíza Sónia Sottomayor para o Supremo Tribunal é ver um magnífico exercício de cidadania
avançada. Não temos em Portugal nada que se lhe compare. Se os nossos parlamentares tivessem a
independência dos congressistas americanos, Cavaco Silva nunca teria sido presidente, Sócrates
primeiro-ministro, Dias Loureiro Conselheiro de Estado, Lopes da Mota representante de Portugal ou Alberto
Costa ministro da Justiça. O impiedoso exame de comportamentos, curricula e carácter teria posto um fim às
respectivas carreiras públicas antes delas poderem causar danos.

Se a Assembleia da República tivesse a força política do Senado, os negócios do cidadão Aníbal Cavaco Silva
e família, com as acções do grupo do BPN, por legais que fossem, levantariam questões éticas que
impediriam o exercício de um cargo público. Se o Parlamento em Portugal tivesse a vitalidade democrática da
Câmara dos Representantes, o acidentado percurso universitário de José Sócrates teria feito abortar a
carreira política. Não por insuficiência de qualificação académica, que essa é irrelevante, mas pelo facilitismo
de actuação, esse sim, definidor de carácter.

Do mesmo modo, uma Comissão de Negócios Estrangeiros no Senado nunca aprovaria Lopes da Mota para
um cargo em que representasse todo o país num órgão estrangeiro, por causa das reservas que se
levantaram com o seu comportamento em Felgueiras, que denotou a falta de entendimento do procurador do
que é político e do que é justiça. Também por isto, numa audição da Comissão Judicial do Senado, Alberto
Costa, com os seus antecedentes em Macau no caso Emaudio, nunca teria conseguido ser ministro da
Justiça, por pura e simplesmente não inspirar confiança ao Estado.

Assim, se houvesse um Congresso como nos Estados Unidos, com o seu papel fiscalizador da vida pública,
por muito forte que fosse a cumplicidade dos afectos entre Dias Loureiro e Cavaco Silva, o executivo da
Sociedade Lusa de Negócios nunca teria sido conselheiro presidencial, porque o presidente teria tido medo
das cargas que uma tal nomeação inevitavelmente acarretaria num sistema político mais transparente. Mas
nem Cavaco teve medo, nem Sócrates se inibiu de ir buscar diplomas a uma universidade que, se não tivesse
sido fechada, provavelmente já lhe teria dado um doutoramento, nem Dias Loureiro contou tudo o que sabia
aos parlamentares, nem Lopes da Mota achou mal tentar forçar o sistema judicial a proteger o camarada
primeiro-ministro, nem Alberto Costa se sentiu impedido de ser o administrador da justiça nacional em nome
do Estado lá porque tinha sido considerado culpado de pressionar um juiz em Macau num caso de
promiscuidade política e financeira. Nenhum destes actores do nosso quotidiano tinha passado nas audições
para o casting de papéis relevantes na vida pública nos Estados Unidos. Aqui nem se franziram sobrolhos
nem houve interrogações. Não houve ninguém para fazer perguntas a tempo e, pior ainda, não houve sequer
medo ou pudor que elas pudessem ser feitas. É que essa cidadania avançada que regula a democracia
americana ainda não chegou cá.